domingo, março 06, 2011


VIAGEM E/PELA LEITURA

GRÉCIA




A primeira edição de Um Adeus aos Deuses, de Ruben A., data de 1963. A abordagem que faz da sua estadia na Grécia nada tem de narrativa casuística ou factológica mas, esculpida em impressões surrealistas, consciente de uma consistente e poderosa bagagem histórica é mais facilmente absorvida pela identificação emotiva de quem já viveu estes lugares.
O livro abre-se para quem viaja, não na intenção de coleccionar lugares e objectos turísticos, mas para descobrir a identidade e a razão dos lugares, como também, para ali situado, pressentir a razão do que É e os caminhos que até SI percorreu.

                   


Mas que fale a poética da escrita:

'Uma Grécia despida de importância, sem oiro de renascenças, coisa pura, límpida, ao gosto civilizado do homem culto, uma humanização de luz penetrada da mais forte simplicidade.'

'O extraordinário destes sítios é obrigarem a trazer à flor do sentimento e à beira da inteligência perfurações que vão a milhares de metros de profundidade do nosso ser. Arranca-se cá de dentro o acamado de séculos de humano, de valores intemporais que surgem estáticos e imóveis, mas virados à testa do Pártenon como implorando o que de religioso há no homem que se encontra frente a frente ao mais poderoso e laico espírito da compreensão.'

'Os mitos são os aviões, os símbolos são os comboios. Na Grécia tudo o que é símbolo é pertença dos homens, está agarrado à terra, discute em paralelas, viaja ao correr da noite e apita com silvos que estoiram de encontro às montanhas - os mitos ambicionam conversar com os deuses, realizarem-se na intempérie das tragédias, criarem tipos e formas, quase nos patamares em que os deuses espreitam.'

'O que é espantoso é perder-se a ideia de infância, de pátria, de antepassados. O homem aqui vive de uma liberdade que o eleva para outras paragens, há uma obrigação no ar, nas colunas, nas estátuas, no congelamento dos livros, uma obrigação a mergulhar no domínio dos deuses criados pelo homem, pelas suas ambições imediatas de contactar a divindade, através da tragédia ou da forma de beleza que se entrega na medida humana.'


'A Grécia não tem nada de orquestral. Tudo é música de câmara. Nisto Henry Miller tinha razão. Quando Mozart lhe aparece dos brancos das ilhas, do casario íntimo de cal deitada às barradas sobre as casas, ele compreende bem o sentido profundo da música de câmara que invade o espírito. Há uma transposição musical em diálogo que nunca vai além de orquestra de câmara, fixando-se na comunhão íntima dos instrumentos de quinteto ou em sonatas para duo. Caminha-se por aqui, sempre a dialogar, uma força bruta agarra-nos cá por dentro a conversas que vão e vêm na harmonia do violino e do piano nas sonatas de Beethoven. É o culto do indivíduo, a liberdade de se ser gente, a fome insaciável de amolar o fio da navalha que cria a dúvida terrível entre a besta, o homem e Deus.'

CITAÇÕES - A., Ruben (2010). Um Adeus aos Deuses. Lisboa: Assírio & Alvim. pp.17, 28, 32, 41.
FOTOS - Vista aérea da ´cidade de Atenas; A Acrópole iluminada; Santorini; - Imagens do Google.


4 comentários:

  1. Santorini... Santorini...

    Gostei!
    bj

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  2. Estive em Atenas e nas ilhas, a impressão é de uma enorme beleza, na maior simplicidade.

    Vou ler...

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  3. Um berço de grande beleza!

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  4. É verdade, sim! A Grécia é um destino incontornável quando o desejo é ir mais além do que a superfície das coisas.

    Obrigada às três pela participação.

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