Tenho dificuldade em aceitar muitas das manifestações que são habituais na comemoração deste dia. Sempre achei que o facto de os seres humanos serem homem ou mulher, com uma particular interpretação/representação, mais cultural que genética, do mundo, não deveria pesar na prática social de iguais direitos e deveres como pessoas e cidadãos.
Como tal não acontece, mesmo no nosso reduto ocidental, onde a exploração da mulher se faz de forma mais hipócrita e velada, não aceito que algumas bem nascidas sejam alvo de inúmeras atenções, desbragadamente induzidas pelo marketing, enquanto que sob a espuma da conveniência ficam na obscuridade dois tipos de mulher:
- A que de alguma forma trabalhou ou trabalha, no fio da navalha da indiferença ou, de forma mais grave, da insídia e condescendência.
- A que é escravizada para fins ditos 'sexuais', abusada pela repressão e mau-trato, ferida, vilipendiada, ignorada e silenciada sem qualquer punição dos crimes de que é o alvo.
Sou humanista e como tal ergo a minha palavra tanto em defesa do homem como da mulher que, em situação precária, são abusados por sistemas ou pessoas imorais e criminosos. Creio, porém, que a situação de integridade física e moral da mulher no mundo é dolorosamente mais grave que a do homem. Daí vejo que este dia poderá fazer sentido se for usado, não para festejar com flores ou caramelos a estabilidade asséptica das mulheres confortavelmente instaladas, mas, para:
- Evidenciar modelos femininos que fizeram a diferença e transformaram o mundo.
- Desvelar prepotência, escravatura e crimes perpretados contra a mulher.
- Debater direitos humanos e tentar com isso desconstruir modelos culturais que afirmam como tradição as mais abomináveis práticas.
Como comemoração proponho a imitação de pelo menos alguns traços da alma de:
Marie Curie 1867-1934
Foi a primeira mulher a receber o prémio Nobel e a primeira pessoa a recebê-lo em duas categorias separadas: Física, 1903, pela sua investigação em radioactividade e Química, 1911. Alguns anos mais tarde ajudou na construção dos primeiros aparelhos de raios X.
Simone de Beauvoir 1908-1986
Uma das líderes da filosofia existencialista do século XX, desenvolveu uma intimidade pessoal e intelectual com Jean Paul Sartre. O seu livro O Segundo Sexo denunciou as tradições sexistas que dominavam a sociedade e a narrativa histórica. Este livro alvo de enorme controvérsia teve um enorme impacto na mudança de mentalidades relativamente ao papel da mulher na sociedade.
Madre Teresa de Calcutá 1910-1997
Como Missionária de organizações de caridade tratou, pessoalmente, cerca de 1000 doentes e moribundos em Calcutá, acompanhando a generosidade activa com palavras de incentivo ao amor entre os homens e à paz. Recebeu o Prémio Nobel em 1979 e é reconhecida como um ícon de altruísmo.
Uma das grandes heroínas da resistência polaca ao nazismo, tendo sido nomeada para o Prémio Nobel da Paz. Salvou centenas de crianças do extermínio nazi correndo inúmeros riscos que colocaram a sua vida em perigo.
Agustina Bessa-Luís 1922
Escritora portuguesa que no cômpito geral da sua enorme e rica obra literária destaca a força, coragem, determinação, inteligência e estratégia da mulher portuguesa, de todas as classes sociais.
FOTOS: Imagens do Google
1. Esther, 500 a.c., Rainha de Xerxes, Rei da Pérsia. A sua atitude corajosa como rainha evitou que o povo de Deus, que permanecia na Pérsia, sofresse um genocídio.






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