AS CRIANÇAS E A CULTURA MUSEOLÓGICA
MUSEO E CENTRO DE ARTES REINA SOFIA
16 DE FEVEREIRO EM MADRID
16 DE FEVEREIRO EM MADRID
1.“ Estamos cada vez mais na via de poder ouvir uma interpretação do mundo tal como ele é. (...) A criança vê as coisas com olhos não acostumados e ainda possui a pura capacidade de sentir as coisas como elas são.“
Wassili Kandinski, (1886-1944)
Todos os dias, de forma consciente ou não, aprendemos lições que alteram a forma como interagimos com o mundo. No adulto essa influência da cultura raramente abala os alicerces da sua cristalizada personalidade. Para a criança o contexto cultural é determinante porque a indiferenciada ductilidade dos processos mentais que se estruturam, numa liberdade curiosa de descoberta, permitem uma assimilação pouco filtrada das experiências.
A gestão do contexto e dos recursos educativos viabilizados pela família e pela escola são, por isso, determinantes na prossecução de uma personalidade moral próactiva, inteligente e criativa.
A vida mental da criança está intimamente ligada à sua experiência sensório-motora. As experiências sensoriais são modeladoras da forma como os meninos apreendem a realidade e logo a transformam. Uma educação equilibrada, sadia e desafiante, dos sentidos e das emoções, tempera a mente dos meninos abrindo-os ao espectro solar da vida.
Provocar a imaginação e sustentar saberes estruturantes não pode limitar-se a uma forma sincrética de informar ou ao possibilitar de experiências múltiplas sem um contexto agregador. Tentar estabelecer uma ilha de capacidade num oceano de cegueira é, em última análise, o malogro.
No Museu da Rainha Sofia fui, pela minha natureza de criança disfarçada de adulto, profundamente tocada pela grandiosidade artística, intemporal, desses poetas plásticos, que leram o mundo com olhos iluminados e sensíveis. Sorri com o sorriso estrelado de Miró, viajei sonhando pelas metáforas do Dali, descodifiquei a fantástica organização conceptual de Picasso encontrando, sempre, na sua honesta simplicidade de recursos, uma nova complexidade de intenções.
A dado momento não pude alhear-me de uma outra realidade do Museu que se constituiu como poderosa lição. Em muitas das salas que visitei dividi o espaço com grupos de crianças ou de jovens que, acompanhados pelos educadores e professores, interagiam com os desafios artísticos expostos e reflectiam sobre os mesmos em leituras pessoais diversas.
Assisti, no acto, a um exercício de imortalidade, a um parentesco cósmico do sentir e do expressar, à experienciação de um fluxo de comunicação paranormal cujo veículo foi a arte.
Duma forma holística e integradora continuadamente realizamos que, a história do que foi é declaradamente a história do que somos, a história com que aprendemos e a história que, visitada e interrogada, nos permite recombinar para aspirar a mais e permitir ininterruptamente o acto criativo.
10. 11.
A lição apreendida tem a ver com essa consciência que as escolas e as famílias espanholas têm da importância da cultura artística como vector de construção de um pensamento autónomo, estético e implicitamente moral, político e ético.
Existem no Museu e Centro de Artes múltiplos serviços que programam actividades para crianças e jovens, famílias e escolas entre outros actos culturais.
O Museu possui uma livraria especializada em que os livros de arte para crianças ou os livros de histórias infantis, concebidos como objectos artísticos, são um convite tentador e subversivo.
Incorporada no edifício, como um recurso orgânico e crítico, atrai-nos a luminosa e ampla biblioteca do museu que alberga mais de 100.000 livros e documentos, 3.500 gravações sonoras e cerca de 1.005 vídeos.
Livres de espírito, auto-determinados, assertivos e proactivos, respeitando o melhor da sua cultura, não admira que deste fermento tenha medrado o talento expressivo artístico e que os espanhóis queiram dar à luz mais Dali, mais Miró, mais Picasso, mais Tapiés ...
Referindo-se à arte da Pintura Picasso afirmou:
“A Pintura é Poesia
E é sempre escrita em verso
Em rimas plásticas
Nunca em prosa.”
Esta Arte-Poesia estabelece o equílibrio prazeiroso entre as emoções e a razão. A ruptura deste delicado sistema é a causa de muitas das doenças do nosso século. As rotinas culturais elevadas educam a criança com o melhor que a sua família alargada tem para absorver.
Melhor que ir ao psicólogo, ou ao terapeuta é, sem dúvida, ir ao Museu!
FOTOS - VCB:
1. Alçado lateral do Museu e Centro de Artes da Rainha Sofia;
2. Pátio interior de acesso ao Museu;
3. Sala de exposição;
4. Sala em que se expõe a obra-prima de Picasso 'Guernica', 1937, na qual se encontravam crianças e jovens que estudavam e debatiam a composição;
5. 'Femme et Chien devant la Lune' - Miró, 1936;
6. Estudo de pormenor do quadro 'Guernica' de Picasso, 1937;
7. Pintura 'Escargot, Femme, Fleur, Étoile' - Miró, 1934;
8. Esculturas dinâmicas 'Tertúlia' de Angelo Santos Torroella,1929, e interacção das crianças;
9. Criança que faz a leitura de uma planta do museu, actividade integrada numa caça ao tesouro;
10. Escultura em bronze 'O Grande Profeta' de Pablo Gargallo, 1933;
11. Escultura em bronze 'Mulher no Jardim' de Pablo Picasso, 1932.



Colega adorei. Estou de acordo com o que conta.
ResponderEliminarEstive lá e passei-me a ouvir aquelas crianças a discutir os quadros!
Marina - educadora de infância
Olá Virgínia,
ResponderEliminarAdorei esta tua postagem, desde a escrita (como tu a fazes), às imagens e a todas as situações que descreves.
Inspiraste-me, fizeste-me vontade de lá ir!
Bjs, Juca
Também conheço estes Museus e apreciei como afirma a participação consciente das crianças por ali.
ResponderEliminarSabe concerteza que o Museu de Serralves tem actividades também elas interessantes para as crianças?
Ei Gigi
ResponderEliminarLindo como tu!
Passeando e Amando, nê????
15 de Fev. é 1 must! WOOOOOWWWW!!!
Te quiero, Guapa.
Vale?
Marina
ResponderEliminarQue bom ter gostado. Obrigada pela participação!
Juca
ResponderEliminarObrigada querida! O que mais apreciei foi que os meninos discutiam pormenores dos quadros com uma facilidade e um interesse. Via-se que era um hábito e não uma visita fortuita.
Abraço Amigo
Alfredo
ResponderEliminarConheço bem Serralves e tenho uma grande admiração pelo seu trabalho com as escolas. Lá chegará o momento de blogar sobre essas experiências.
Muito obrigada e volte sempre!
Bia
ResponderEliminarPasseando e amando, SIIIMM!!!
Bj Grande
Gostei muito. Viagem bem aproveitada!
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