terça-feira, janeiro 18, 2011



ESTAMOS PERDIDOS

Ao reler Eça reencontrei o anarquista que vestiu papéis de romancista, periodista, cronista e diplomata. Interpelava a pátria portuguesa da forma mais crua, irreverente e crítica. De 1871 a 1888 delineou o seu Inquérito Queirosiano que tinha como intenção, segundo afirmava, despertar o 'porco adormecido' - a Pátria. O seu contacto com outros países, nomeadamente Inglaterra, levou-o a olhar a realidade portuguesa com ironia e cepticismo. No entanto, procurava espicaçar as mentes e intervir no debate político e social.

É de 1871 o seguinte excerto:

«Estamos perdidos há muito tempo...
O país perdeu a inteligência e a consciência moral.
Os costumes estão dissolvidos, as consciências em debandada.
Os caracteres corrompidos.
A prática da vida tem por única direcção a conveniência.
Não há princípio que não seja desmentido.
Não há instituição que não seja escarnecida.
Ninguém se respeita.
Não há nenhuma solidariedade entre os cidadãos.
Ninguém crê na honestidade dos homens públicos.
Alguns agiotas felizes exploram.
A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia.
O povo está na miséria.
Os serviços públicos são abandonados a uma rotina dormente.
O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
A certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciências.
Diz-se por toda a parte: “o país está perdido!”
Algum opositor do actual governo?... Não!»

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