quinta-feira, agosto 12, 2010

NO PRINCÍPIO ERA O SOM vs O POSSÍVEL CRIATIVO


Andante para flauta e orquestra, in C major, K. 315 (K. 285e) de MOZART

Marcel Proust afirmou na sua obra Em Busca do Tempo Perdido que a música poderia ter sido o exemplo único da comunicação das almas, não fosse a invenção de uma outra linguagem que, formada por palavras, analisa as ideias. Esta distinção / relação entre linguagem simbólica e denotativa, construiu pontes conceptuais que extravasam do símbolo aberto das representações, ora mágicas, ora inconscientes e emotivas, ora metafóricamente eivadas de sentidos, para o signo especializado, organizado e orientado. 

Uma das minhas leituras de descoberta, que indicia a música como fundadora, foi a de Thais Curi Beaini, doutorada e pós-doutorada em Filosofia, pela Universidade de S. Paulo, onde exerce como docente na sua área, sustentando uma linha de pesquisa sobre Arte como fruto das concepções epocais do SerEnfocando Arte, Linguagem e Mito, relacionados com o Pensamento de Martin Heidegger.
Segundo Thais 'O som designa a força da espiritualidade: o cunho do imortal, no fluxo do efémero. Os entes, compostos por trevas e luminosidade, por seu próprio som des-cerram, no des-velamento, o acto inaugural - transição do invisível ao visível. O deus cantor cria os entes ao nomeá-los, chamando-os individualmente à existência. Criar significa nomear, essencializar.'

Nesta linha, reflectindo sobre a organização do Caos, em que a primeira separação se estabelece em som e luz, assere Schneider (1989) - 'Nesse mundo húmido de sons e de luz, a música é a única realidade, e só depois da aparição da matéria é que ela se transforma parcialmente em fogo, em água e noutros objectos concretos. Essa música parece compor-se ora de gritos, ora de sílabas mágicas, ora de gemidos ou ruídos inarticulados. Na linguagem simbólica, o carácter hermafrodita dessa música exprime-se claramente pela sua identificação com a aurora, pois a fusão da noite e do dia, das águas e dos fogos ou da chuva e dos raios de sol no ruído das brilhantes bodas da aurora (Rigveda) é uma metáfora do casamento, isto é, de um ritmo produzido pela união do som e do metro. A música é o protótipo do princípio concertante das forças da natureza.'

As primeiras percepções externas do embrião humano são de ordem acústica o que, metaforicamente, é um indicador que desvenda o processo de gênese. A música é natural ao homem que herda as pulsações primordiais, harmónicas e securizantes.  Desde os tempos primitivos até à contemporaneidade, o ser humano domesticou o som que produz, esculpindo-o à medida das suas emoções, sentimentos e performance sócio-cultural.
O sábio grego Pitágoras (séc. VI a.c.) relaciona as vibrações sonoras com a Matemática, estudando cadências e ritmos naturais, verificando os seus padrões e estabelecendo uma primeira escala de sons adequados ao uso musical.

Espinosa (1632-1677) inscreve a força criadora humana no interior do universo. O sopro divino que, numa espiral criativa, holisticamente revela a nascente e o cantar da água que dela brota.
O fogo sagrado roubado a Zeus por Prometeu não parece ter, no entanto, insuflado de igual forma todos os homens. Mozart é uma evidência consensual de irrupção criativa da mais alta qualidade mas, grande parte da humanidade, não atinge essa sublimação artística. Como diria Ortega y Gasset, é o homem e a sua circunstância! Será de crer que a especialização criadora requeira uma especialização genético-cultural que predispõe o artista para uma enorme abertura e plasticidade na esfera do seu possível.

Ouçamos Mozart e mergulhemos na harmonia do Deus Primordial!

VÍDEO - You Tube
IMAGEM DO GOOGLE- Prometeu entrega o Fogo Sagrado à Humanidade - Heinrich Fueger, 1817
REVISÃO LITERÁRIA:
Proust, Marcel (s/d). Em Busca do Tempo Perdido. O Tempo Redescoberto. Vol. VII. Lisboa: Edições Livros do Brasil.
Beaini, Thais Curi (1994). Máscaras do Tempo. Petrópolis: R.J. Vozes.
Schneider, Marius e Lauer, Hans (1989). Cosmic Music. Musical Keys to the interpretation of Reality. Vermont: Inner Traditions.
Morin, Edgar e Cassé, Michel (2003). Filhos do Céu. Entre Vazio, Luz e Matéria. Lisboa: Instituto Piaget.

16 comentários:

  1. Anónimo12.8.10

    Muito linda a música e o vídeo-
    Susana

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  2. Cara colega

    Abordagem bem esgalhada... Continue...

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  3. Li enquanto ouvia. É um exercício compensador quando música e escrita são "aquela coisa".

    beijinhos

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  4. Parabéns pela perspectiva...

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  5. Esboço / Opinião em traço limpo!!!

    De Istambul o meu apreço...

    As tuas filhas não vinham p'ra cá?

    Amo-te MULHER!!!

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  6. Virgínia

    O Prometeu está contigo...
    bj amigo

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  7. Gigi

    GOSTEI!

    Sem palavras, nem pensamentos profundos, deixo isso para ti, filha...

    Estou de férias. Vemo-nos em Setembro?
    Lanchinho ou Almocinho?

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  8. Susana
    Muito obrigada. Conto com a sua visita!

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  9. Seninha

    Já parece a nossa arquitecta Sissi a falar...
    É sempre muito bem recebida a sua opinião. Muito obrigada.

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  10. Aquela COOOOISA é a ANAAAA.
    Obrigada.
    bj

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  11. Sissinha

    É uma responsabilidade imensa receber esse AMOR...

    As filhas estão hoje na Grécia, chegam a Istambul na 5ªfeira. Mas, menina, isto não é serviço de e-mail. Use este espaço condignamente.

    BEIJÃO

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  12. Martinha

    Hoje estou em lume brando...

    bj

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  13. Bia

    Tb estou de férias. Vegetando.
    Trata de marcar... Almocinho, é claro!

    bj grande

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  14. Obrigada Cristina

    Não me tinha apercebido do teu comentário.
    bj grande

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  15. Gostei muito. Sou um mero seguidor mas só relevo o que me fala à inteligência e ao sentir.

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  16. Muito obrigada Luis

    É um gosto tê-lo como seguidor.
    Volte sempre.

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