segunda-feira, junho 21, 2010

SARAMAGO, ATÉ JÁ!

1922 - 2010


A morte incita a perplexidade. A morte faz-nos sentir a temporalidade do exercício de viver.

Perante a morte adoçamos o julgamento, ficamos tolerantes... Pudera, do morto, já não advém qualquer mal, pensamos. Já não temos de o enfrentar ou disputar a sua razão.



O problema é quando o morto não morre!



(Gela-se-lhe o corpo, o coração não bate, não empurra a corrente sanguínea para o cérebro, este não desconstrói e constrói como era seu dever de rotina. A matéria desintegra-se daquela identidade, depura-se a essência da vida, reorganiza-se o cosmos, o Self dá lugar à Totalidade, à plenitude universal.)



Quando tinha 5 anos, a minha filha Alberta, com a lucidez e clareza da sua idade, questionou os pais sobre a posição doutrinária da família perante a morte.

Perguntou: ‘Se a tia vai para o céu, então como é que o caixão sobe?’ O Barroso fitou-me num meio sorriso e desviou-se: ‘Dá-lhe tu a resposta, as mulheres têm sempre as melhores explicações...’

A Alberta tem o nome do avô, meu pai Alberto. Nasceu como se lhe sucedesse, durante o período doloroso do luto. Nesta experiência de 5 anos eu havia questionado e destilado o referente experiencial da relação, o material narrativo, a simbiose afectiva, a amputação do desejo e energia vital. No fazer deste vinho, ceifado, torturado, espremido e reconvertido descobri que o meu pai não morrera porque vivera exemplarmente através das palavras, das obras e de um espírito aberto ao sonho e ao belo. Tudo o que foi importante na sua vida ficou e, em todos os dias, que ainda vivo, respiro a placidez e agência do mesmo sonho humano, de um Bem Maior.

Respondi à menina curiosa: ‘Filha, o corpo e o caixão ficam na terra, já viste como se sepultam os corpos, mas todas as coisas boas que a tia fez vão ficar connosco, para sempre. Somos responsáveis por fazê-las viver e nelas vai estar sempre a Alma da Tia.



Volvendo ao tema, o morto não morre mesmo, a não ser que a sua vida tenha sido tão negra e em desafecto, que não se vislumbre luz do espírito ou história para contar.

Saramago não levou as palavras todas, como afirmou Canavilha. Saramago entregou-nos as palavras, as obras e o espírito superior e inebriante que as fez brotar e que as tornou eternas no coração dos homens. O corpo de Saramago tomou novas formas no Cosmos, mas foi talentosa e criativa a sua viagem entre nós. É bom que saibamos dar conta do melhor que com ele aprendemos.
A melhor homenagem, agora, é concordar com o que, do seu pensamento e forma de vida, em nós converge e, respeitá-lo, discordando abertamente, de tudo, o que, a partir desse debate inteligente e humano, não podemos concordar ou entender.

FOTO - Imagem do Google - Saramago e a sua esposa Pilar del Rio

1 comentário:

  1. Só li A Jangada de Pedra e agora o Caim. Não concordo com o Saramago em muita coisa, mas que teve golpe d'asa, lá isso teve.

    Gosto muito do seu blog. Parabéns.

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