sábado, abril 24, 2010

3ªs e 5ªs FEIRAS
ou
PALITOS, PROTOCOLO E CORTESIA

Quando se reune, na intenção da mesa, o grupo flui sem regras de discurso. São abordados temas comezinhos e insólitos, resvalando dos mais sérios para os satíricos, apimentados e até burlescos. Percentualmente, a maior aposta, converge para a diátribe, o jogo cruzado da ironia, a delucidação dos conceitos prévios, até ao ônus da prova.
Riso aberto que lava as toxinas mais azedas e veste, a obrigatória rotina alimentar, de uma agradabilidade contente, recuperadora, em que o corpo e a mente obtêm tudo o que lhes é vital.
Do teor obrigatório dos procedimentos faz parte o servir dos cafés. São respeitadas as idiossincrassias: curto, comprido, com ou sem açúcar, com adoçante, com aguardente. É securizante e amável a certeza, na qual, quem serve, (normalmente a Alcina, a Paula ou a Margarida), respeita sem hesitação, ou questionamento, as exigências de cada comensal. (Diria a Margarida: 'Ó Virgínia, é muito tempo a virar frangos!)
Tempo forte, o ritual de fecho: Cerimónia de entrega de palitos, comme il faut, de tamanho e espessura nobre, no seu invólucro, individual, de papel.
O uso que lhe damos serve, ou não, os prejuízos, espartilhos ou mandar para o tecto, de cada um de nós.
À procura de uma acomodação crítica grupal, foi debatido o uso dos palitos, temeu-se que o seu uso, escancarado, desrespeitasse pruridos de etiqueta ou fosse julgado como insensibilidade educativa. 

Vejamos:

HISTÓRICO   

O palito é claramente identificado antes do aparecimento do homem na Terra. A dentição dos Neandertais revela o uso de palitos nos dentes. Também foram observados primatas a utilizar aparas de madeira com o mesmo propósito.

O palito de dentes é conhecido por todas as culturas humanas e foi fabricado com os materiais mais diversos: madeira, plástico, bronze, ferro ou outros metais.

No século XVII, os palitos eram objectos de luxo, considerados itens de joalharia. Eram feitos de metais nobres e enfeitados com pedras preciosas.

A primeira máquina para fazer palitos data de 1872.


PROTOCOLO, ETIQUETA E CORTESIA

Em qualquer acontecimento social se exige, hoje, o protocolo. A partir deste filtro são medidas a interacção e maneiras humanas, à luz de convenções erguidas pela cultura ocidental urbana.

Diz-se que esta uniformização do costume é integradora e assim qualquer nouveau riche, impreparado, brilha num jantar nova-iorquino apenas aprendendo e respeitando o código grupal. Protocolo e etiqueta sempre andaram de mãos dadas como regras orientadoras de uma tribo que preza a sua especificidade.

Cortesia é um conceito menos normativo e apela à amabilidade. Quando recebemos alguém no nosso grupo social, familiar ou profissional, não só dá-mos parte de alguns hábitos e rituais do nosso ambiente, como, cortesmente, procuramos aprender e integrar as suas maneiras e valores culturais.

É desta simbiose aculturada que nasce algo de novo, tolerante, simpático, amigo, potenciador de plástica alegria.



A Cortesia é o lugar do Pertencimento, palavra-conceito bem desenhados pelo Paulo Freire.

Meus amigos, o segredo do bem-estar deste bando esfomeado das 3ªs/5ªs feiras, é a sua avidez pela interacção diversa, usando uma curiosidade alerta, um criticismo irónico mas cortês no lugar que oferece a quem chega de novo, cordial, aberto e verdadeiramente interessado.
É aqui reveladora a definição de grupo dada pela álgebra moderna, ela ilustra um lugar contentor, diverso, desafiador e criativo: ‘Conjunto de elementos da mesma natureza que contém, com cada elemento, o seu inverso, e, com cada grupo de elementos, a sua resultante.’

Voltando ao palito, deixemo-nos, na expressão de Nietchze, de punhos de renda, este instrumento foi banido das reuniões sociais protocolares, ou do grupo familiar, pela ostensiva e grosseira maneira como eram usados e porque os odontologistas concluíram que podem ferir e danificar as gengivas, facilitando a vida a germes e bactérias.




Da minha parte, entre gente educada, cada um disponha do seu palito como bem entender!



A liberdade conduz inevitavelmente ao diverso que quando não lesa direitos ou oprime sentimentos é ostensivamente travessa, arriscada, desafiadora e singular.

IMAGENS - Palitos - Imagens do Google
FOTO - Conjunto de Paliteiros da Vista Alegre 

5 comentários:

  1. Gostei deste histórico. As questões de etiqueta estão hoje na berlinda. O pessoal não percebe que quer demarcar a sua tribo. E, às vezes de que maneira!
    Parabéns Gigi

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  2. Protocolo existe sempre em qualquer sociedade, cultura ou tempo histórico. Ele garante a identidade e congrega a tribo. Ás vezes o protocolo é uma arma de exclusão, ou uma bandeira de pseudo-elitismo.
    Gosto da sua escrita e do seu sentir.

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  3. Tá demais esta história do palito. Hás-de estudar também a questão da origem dos outros palitos ... Tá bem?
    bj
    És a MAIOR!

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  4. Luisinha e Alfredo
    Estou plenamente de acordo com o que asserem.
    Obrigada pelo vosso contributo e pelo carinho da visita.

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  5. Bia

    A origem dos outros palitos é tão velha quanto o mundo. Já vem documentada no Antigo Testamento. Vê se te cultivas.

    É sempre bemvindo e refrescante esse teu humor.
    bj

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