terça-feira, abril 06, 2010

3ªs e 5ªs FEIRAS

OU

LEITURAS “CORRECTAS” PARA MULHERES “IDEAIS”: EDUCAÇÃO MORAL DO “BELO SEXO” PARA A INSTRUÇÃO DA FAMÍLIA E O SERVIÇO DA PÁTRIA

Mulheres em alarido. Um almoço repartido entre as vivências romântico-culturais femininas e os desconcertos do futebol.
Um dos homens revelou-se adverso ao romance como literatura de eleição e aí debati-me. Toda a minha auto-formação, de menina, adolescente e jovem se sustentou na leitura dos clássicos. O romance abriu o espírito e a inteligência, em desenvolvimento, a um mundo insuspeitado e hiperdistante do quotidiano que, entre os anos 60 e 70, era francamente estreito em Portugal.

Foi quando a Paula se lembrou de John, O Chauffeur Russo, de Max du Veuzit, que marcou a construção do ideal feminino/masculino, determinando uma imagem de homem/princípe, superior de alma e de saber, que escolhia para esposa a frivolazinha menina rica, ingénua e tonta, mas encantadoramente bela.  Era esta a receita da biblioteca do liceu que reunia volumes da colecção Condessa de Ségur, Biblioteca das raparigas, Romano Torres e outras edições seleccionadas. Era permitido ler mas não ousar. 

O conceito de habitus e de reprodução, enunciado pela teoria de Pierre Bourdieu, é aqui útil na caracterização destes modelos, produtos  de um sistema de ensino dualista, que durante o Estado Novo reforçaram desigualdades de classe e de género. As vivências ocorridas neste contexto incorporavam um habitus feminino burguês e de trabalho, um estereótipo feminino, que caracterizava uma formação da jovem dirigida, no espaço privado, para o casamento, (mãe, fada do lar) e que  apontava, no espaço público, para a realização de trabalho autónomo como costureira, bordadeira, professora, telefonista, etc. Cumpria-se, desta forma, um processo de socialização e de ascensão social, respeitando uma directiva modelar para o feminino.

Na Venezuela, retirada às inconveniências da ditadura e educada por um pai francamente neoliberal, saboreei uma infância, materialmente rigorosa mas, rica e anárquica em termos de estímulos culturais. Desde muito pequena aprendi a viver em grupo e a devorar todo o tipo de texto literário que encontrava. Do romance cor-de-rosa da Corin Telhado, aos livros de contos e romances do Rómulo Gallegos, passando pelas poesias do Afonso Lopes Vieira, do João de Deus, do Augusto Gil e outros, passei, a partir da puberdade e no meu regresso a Portugal, a degustar obras de maior envergadura, de autoria nacional ou não, que me colocavam numa outra dimensão perceptiva do mundo.

Cedo me tornei inconveniente já que não reproduzia o modelo feminino que a família (exceptuando o pai), a escola e a igreja tinham preparado para mim. Questionava e asseria demais e raramente encontrava parcerias empáticas ou intelectuais. Como uma sebe sem poda desenvolvi flores, frutos e espinhos, até à decisão de mim própria.

Nem todas as mulheres da minha geração decidiram com clareza o seu destino. Muitas tarde descobriram o vazio dos arquétipos convencionais. Algumas sobreviveram erguendo um altar à sua submissão, outras foram mães absolutas e esvaziaram os sonhos, houve quem enquistou na futilidade e na rotina, mas algumas, como 'Olhos Verdes' mandaram tudo às urtigas, reconvertendo a vida. A partir das cinzas pardas de uma alma mutilada eclodiram em fogo rutilante e intenso de uma fénix alada.   É vê-las por aí!!! 

4 comentários:

  1. Já não me lembrava desta tua postura feminista.
    No Esperança davas cabo das irmãzinhas. Mulher difícil.
    Uma senhora não faz ondas.
    bj

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  2. O meu mano no sentido da provocação costumava dizer:

    Gina
    'O silêncio é a roupagem da mulher.'

    Não tinha era muita sorte.
    bj

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  3. Resolvi seguir-te.

    Lembrar que existe, ainda, muita descriminação da mulher, até na Europa.
    Há casos de escravatura mesmo.

    É uma pena que as mulheres que conquistaram um bom lugar neste mundo se mantenham caladas.

    Obrigada Virgínia

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  4. Sofia

    É um prazer ter-te por aqui. Muito obrigada pela gentileza da tua participação.

    Pobre de mim, o meu palco é a minha casa!
    É nesse espaço que, sendo eu mesma, não me abstenho de lembrar que mesmo no nosso dia a dia nos cruzamos com um mundo cruel e discriminatório. No que toca à mulher, tornar visível muito do sofrimento que a hipocrisia social encobre é uma obrigação ética. A questão é que uma mudança de cultura depende da educação e do conhecimento, que por sua vez se sustentam no equílibrio da economia e na bondade da agenda política. Enfim, há que actuar na nossa esfera, mas ser realista quanto ao espectro da nossa acção.
    PS - Libertar é desenvolver e não podemos libertar a mulher sem libertar o homem. A evolução é conjunta.

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