domingo, março 21, 2010


21 MARÇO - DIA DA POESIA

Assim, o que um poeta
faz com as palavras, ao
tocá-las com os dedos,
não é só
o que o músico faz com os sons
ou o pintor com as cores.
As palavras,
cuja composição espessa cimenta
o cérebro e lhe dá peso,
não se reduzem às matérias visual
e acústica
respectivamente
da cor e do som.
A queda desamparada
do sentido para dento de um
pequeno espaço de escrita,
assim como a súbita relação
estabelecida entre esse facto
e a minha consciência dele, desde logo
ampliam o horizonte expressivo
do poema.
E se o raciocínio e o gesto, em parte,
não entram nele,
não quer isto dizer que uma (outra)
razão, talvez mais profunda,
o inspire e penetre.
É que ela não se manifesta
expressamente pois, pelo contrário,
só no seu aspecto oculto
e “longínquo” se revela
- imediatamente -
o Poético.


Nuno Júdice – Obra Poética (1912 - 1969)

2 comentários:

  1. Obrigada Fátima. Sei que alguém te sugeriu o comentário! Quem seria?

    bj

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